Uma palestra do professor Edson Piroli, da Unesp de Ourinhos, na Câmara de Santa Cruz do Rio Pardo na noite de segunda-feira, 13, aumentou o temor sobre o impacto da possível instalação de 3 PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) no rio Pardo. O especialista em Meio Ambiente alertou que as construções poderão causar até mesmo pequenos terremotos, suficientes para derrubar uma casa. “E pode ser a minha ou a sua”, alertou.
A palestra foi promovida pela “frente” que se opõe às usinas, coordenada pela ONG “Rio Pardo Vivo”. Além de educadores e líderes agropecuários, prestigiou o evento o ator Umberto Magnani Netto, que novamente se emocionou ao defender a integridade do rio Pardo. A ligação de Magnani com o Pardo — onde brincava na juventude e adolescência — é tão forte que a biografia do ator, editada pelo Governo do Estado, foi batizada de “Um Rio de Memórias”.
Os organizadores criticaram a ausência da prefeita Maura Romunaldo Macieirinha (PSDB) e do secretariado do município. Todos foram convidados.
Edson Piroli explicou o que é uma PCH e alertou que o projeto pode estar sendo superdimensionado em Santa Cruz. Segundo ele, as barragens das hidrelétricas de Piraju e Salto Grande medem, respectivamente, 17m e 20m de altura, enquanto as futuras usinas do Pardo terão barragens de até 33 metros. “É um prédio de 11 andares”, advertiu.
Ao citar os poucos empregos que serão criados quando as usinas estiverem em funcionamento — cerca de 8, segundo o próprio empreendedor —, ele afirmou que quase todos serão preenchidos por pessoas de outras cidades. Além disso, os 200 empregos estimados durante a construção de cada usina, segundo Piroli, fatalmente serão de mão-de-obra não qualificada, que trarão problemas sociais e vão lotar os hospitais da região.
No entanto, os maiores impactos serão no Meio Ambiente. De acordo com o professor da Unesp, não há meios de se retirar todos os animais silvestres que vivem nas matas às margens do rio Pardo. “Muitos vão morrer ou invadir áreas populacionais”, disse. No início do ano, uma onça foi encontrada num bairro residencial de Santa Cruz do Rio Pardo.
Piroli também alertou para o desaparecimento das abelhas — algumas do tipo Jataí, cujo litro de mel chega a valer R$ 500,00. Elas vivem no tronco das árvores e são responsáveis pela polinização na natureza. “Já vi enxames deste tipo na região do Pardo, mas eles fatalmente vão desaparecer”, afirmou.
“As PCHs são pequenas na geração de energia, mas grandes na geração de impactos”, disse o professor da Unesp. Ele alertou, por exemplo, que a formação dos grandes lagos no rio Pardo podem provocar até pequenos terremotos. Segundo ele, isto acontece porque as placas tectônicas podem se movimentar com o excesso de peso das águas do lago que, em alguns pontos, terá até um quilômetro de largura. “Estes pequenos terremotos são suficientes para derrubar uma casa. E pode ser a minha ou a sua”, disse, dirigindo-se à plateia.
Piroli também explicou os meios alternativos de geração de energia, mostrando projetos já existentes em Portugal e até no Nordeste brasileiro. A energia eólica, por exemplo, que compreende a geração mediante gigantescas hélices, têm a vantagem de ser implantada em locais previamente definidos, sem grandes impactos ambientais.
Outra fonte aceita pelas entidades que defendem a preservação ambiental é a biomassa, existente nas usinas de álcool. “Náo podemos permitir que o dinheiro do BNDES, que é nosso, seja usado para nos prejudicar”, concluiu.
Problemas — O presidente do Sindicato Rural de Santa Cruz, Antônio Salvador Consalter, alertou que a desapropriação das áreas vai provocar graves problemas para os proprietários. Algumas propriedades, segundo ele, serão produtivamente inviabilizadas com a redução do tamanho. Além disso, a empresa que pretende construir as usinas vai negociar o valor da desapropriação somente depois que tomar posse das terras.
O ator Beto Magnani, filho de Umberto e dirigente da ONG “Rio Pardo Vivo”, lembrou que a discussão sobre as usinas começou há um ano, quando ele alertou as autoridades, da “tribuna livre” da Câmara, e ganhou vulto. “É uma tecnologia obsoleta que querem construir. Mas aqui, não”, afirmou.
O presidente da Associação Comercial e Empresarial (ACE) de Santa Cruz, José Sanches Marin, alertou que a região deve definir um grave dilema: “O que é prioridade? Energia, água ou alimentos”? Ele lembrou usinas de álcool da região produzem mais energia, através da biomassa, do que as PCHs que pretendem instalar no Pardo. Segundo Sanches, Santa Cruz está sendo elogiada em toda a região por liderar o movimento contra as usinas no Pardo. “Nós tivemos a coragem de tomar uma decisão histórica”, afirmou.
O ator Umberto Magnani sugeriu a elaboração imediata de uma lei tombando as margens do rio Pardo no município de Santa Cruz (leia nesta página). “Podemos seguir o exemplo de Piraju, onde há lei semelhante e, a partir dela, iniciarmos a nossa”, disse. Ele fez um apelo para que a bandeira de preservação do rio Pardo seja empunhada por cada habitantes. “Se isto acontecer, vamos ficar imbatíveis. Se não ganharmos, pelo menos vamos atrapalhar muito, adiando este crime contra as futuras gerações para o século 22”, disse.
Entre os vereadores, José Paula da Silva (PR) admitiu que tinha dúvidas sobre os projetos e até via com bons olhos a construção das hidrelétricas. No entanto, mudou de ideia após a série de palestras promovidas pela ONG Rio Pardo Vivo. “Hoje sou contra”, disse.
Professor da Unesp alerta sobre impacto das usinas
MEIO AMBIENTE — Apesar da pouca representatividade nas audiências públicas, professor ressalta que comunidade e o poder público ainda podem impedir usinas
O grupo contrário à construção das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) no rio Pardo está promovendo ações buscando a conscientização de toda a região sobre os males das prováveis usinas que serão construídas. Na terça-feira, 31, o professor Edson Piroli, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Ourinhos, explicou aos alunos do colégio Camões sobre os impactos resultantes da possível construção das usinas. O palestrante foi convidado por Carlos Henrique da Silva, professor de Geografia da instituição. “São muitos os problemas relacionados ao meio-ambiente, mas a questão do rio Pardo é a mais próxima do aluno. O objetivo é esclarecer alguns aspectos e, também, uma maneira de dinamizar a disciplina, de compreender os conceitos de forma prática”, afirmou Piroli.
Aos alunos do Camões, Edson Piroli levantou questionamentos a respeito da fauna e flora do rio e o provável desaparecimento de algumas espécies caso haja a concessão para construção das usinas. “O xaxim tem o corte proibido e foi encontrado em várias regiões. Há também abelhas nativas, encontradas nos troncos das árvores, que são essenciais nos serviços ambientais, ou seja, serviços prestados pela natureza, como a polinização. É uma cadeia e a destruição de uma espécie desequilibra todo o ecossistema”, alertou Piroli.
Além das questões ambientais, o professor da Unesp também falou sobre problemas socioeconômicos que podem decorrer da instalação das PCHs. Ele comentou a certificação de áreas produtivas, explicando que a inundação das terras poderá alterar a qualidade do produto final, invalidando os certificados de qualidade. Outro ponto preocupante diz respeito à indefinição dos programas de indenização das terras desapropriadas — que correspondem a mais de 2.500 hectares. Segundo ele, os valores não foram definidos, criando uma situação arriscada para os proprietários. “Como vamos contestar o valor recebido depois da documentação assinada? É a mesma coisa de vender uma casa e só depois, com o contrato na mão, o comprador dizer quanto vai pagar”, questiona.
Na medida em que as negociações avançam, os estudantes mostram preocupação com os prazos para que o impedimento da licença seja possível. Gabriel Ferreira, por exemplo, tem uma posição realista sobre o assunto. “Acho difícil reverter a situação, mas temos que tentar. Se não houver essa tentativa, vamos nos arrepender muito depois”, disse o estudante do 1º ano do Ensino Médio.
Sobre os trâmites políticos do pedido de concessão, Piroli relembrou a pequena participação da população nas audiências públicas, mas reforça que ainda é tempo de reivindicar. “A empresa que pretende construir as PCHs já fez estudos ambientais. Depois tivemos as audiências em Santa Cruz, Ourinhos e Águas de Santa Bárbara. A Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) irá fazer sua avaliação e, então, pode-se interpelar e pressionar o poder público. Depois da concessão da licença, só poderemos recorrer à Justiça”, explicou.
O palestrante lembrou que a posição da comunidade deve ser considerada e que o apoio da administração municipal é fundamental para que haja representatividade junto à Cetesb. A secretária do Meio Ambiente, Rosânia Cláudia Guerra, que participou do evento, assegurou que o atual governo municipal se posiciona contra a construção das usinas. “No começo, não sabíamos direito como seria. Agora já há um entendimento de todas as consequências ruins que acompanharão essa obra. O tempo foi sarcástico conosco e temos que ser rápidos”, finalizou Rosania, referindo-se ao pequeno período no qual os representantes precisaram se organizar para promover a conscientização popular. Aliás, este fato explicaria a falta de público nas audiências.
“Ainda é preciso aprofundar a divulgação. Vamos aproveitar a Semana do Meio Ambiente para informar as pessoas que ainda não têm conhecimento sobre o assunto. A posição da comunidade tem peso e está garantida na Constituição. É isso que precisamos fazer valer”, concluiu o professor Edson.
Aos alunos do Camões, Edson Piroli levantou questionamentos a respeito da fauna e flora do rio e o provável desaparecimento de algumas espécies caso haja a concessão para construção das usinas. “O xaxim tem o corte proibido e foi encontrado em várias regiões. Há também abelhas nativas, encontradas nos troncos das árvores, que são essenciais nos serviços ambientais, ou seja, serviços prestados pela natureza, como a polinização. É uma cadeia e a destruição de uma espécie desequilibra todo o ecossistema”, alertou Piroli.
Além das questões ambientais, o professor da Unesp também falou sobre problemas socioeconômicos que podem decorrer da instalação das PCHs. Ele comentou a certificação de áreas produtivas, explicando que a inundação das terras poderá alterar a qualidade do produto final, invalidando os certificados de qualidade. Outro ponto preocupante diz respeito à indefinição dos programas de indenização das terras desapropriadas — que correspondem a mais de 2.500 hectares. Segundo ele, os valores não foram definidos, criando uma situação arriscada para os proprietários. “Como vamos contestar o valor recebido depois da documentação assinada? É a mesma coisa de vender uma casa e só depois, com o contrato na mão, o comprador dizer quanto vai pagar”, questiona.
Na medida em que as negociações avançam, os estudantes mostram preocupação com os prazos para que o impedimento da licença seja possível. Gabriel Ferreira, por exemplo, tem uma posição realista sobre o assunto. “Acho difícil reverter a situação, mas temos que tentar. Se não houver essa tentativa, vamos nos arrepender muito depois”, disse o estudante do 1º ano do Ensino Médio.
Sobre os trâmites políticos do pedido de concessão, Piroli relembrou a pequena participação da população nas audiências públicas, mas reforça que ainda é tempo de reivindicar. “A empresa que pretende construir as PCHs já fez estudos ambientais. Depois tivemos as audiências em Santa Cruz, Ourinhos e Águas de Santa Bárbara. A Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) irá fazer sua avaliação e, então, pode-se interpelar e pressionar o poder público. Depois da concessão da licença, só poderemos recorrer à Justiça”, explicou.
O palestrante lembrou que a posição da comunidade deve ser considerada e que o apoio da administração municipal é fundamental para que haja representatividade junto à Cetesb. A secretária do Meio Ambiente, Rosânia Cláudia Guerra, que participou do evento, assegurou que o atual governo municipal se posiciona contra a construção das usinas. “No começo, não sabíamos direito como seria. Agora já há um entendimento de todas as consequências ruins que acompanharão essa obra. O tempo foi sarcástico conosco e temos que ser rápidos”, finalizou Rosania, referindo-se ao pequeno período no qual os representantes precisaram se organizar para promover a conscientização popular. Aliás, este fato explicaria a falta de público nas audiências.
“Ainda é preciso aprofundar a divulgação. Vamos aproveitar a Semana do Meio Ambiente para informar as pessoas que ainda não têm conhecimento sobre o assunto. A posição da comunidade tem peso e está garantida na Constituição. É isso que precisamos fazer valer”, concluiu o professor Edson.
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