Estudo inédito produzido pelo Dieese mostra que maior escolaridade e presença no mercado profissional aumentaram o poder do sexo feminino. Porém, excesso de trabalho e estresse já fazem o enfarte ser o principal vilão para elas A ascensão da mulher também já chegou na renda das famílias. Elas contribuem, em média, com 47,9% do total dos rendimentos da família brasileira. É o que mostra o levantamento inédito “Anuário das Mulheres Brasileiras” produzido pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), em parceria com a SPM (Secretaria de Políticas para as Mulheres), com dados de 2009. A maior participação nos rendimentos aparece em sintonia com o mercado de trabalho. As mulheres ocupadas foram maioria nos setores relacionados aos serviços de cuidados, como educação, saúde e serviços sociais, alojamento e alimentação, além dos serviços domésticos. A autora da pesquisa, a economista do Dieese Patrícia Lino Costa, afirma que há uma presença crescente da mulher no mercado de trabalho. “Está se desfazendo o mito de que o homem é o único provedor. Aumentou também o número de mulheres que se declaram chefes da família”, destaca. Outro cenário No mundo dos negócios isso também mostra avanços. O economista Maurício Godoi Amaral Lima, professor da FIA (Fundação Instituto de Administração), cita que no financiamento imobiliário a mulher já tem participação fundamental. “Segundo estudos de uma empresa da construção civil, houve aumento no ano passado de 35% da participação das mulheres na composição de renda familiar junto à construtora para obtenção de financiamento dos apartamentos”, diz. Patrícia comenta também que a mulher tem particularidades na forma como administra seu dinheiro que ajudam no seu desenvolvimento. “Elas se preocupam com o futuro e agora também buscam sua independência financeira. A pesquisa encontrou muitas donas de casa que criaram pequenos negócios, como fazer bolos, para aumentar sua renda” , diz. Em regiões mais pobres do país o trabalho masculino costuma ser sazonal. A mulher também leva vantagem nisso, já que além delas já trabalharem em atividades como colheitas, elas também conseguem emprego nos períodos de inatividade, por exemplo, em serviços domésticos. Os programas de transferência de renda também têm ajudado na melhora da renda das mulheres, pois o benefício vem no nome da mulher e, além disso, em muitos casos elas ainda possuem um trabalho, formal ou informal adicional. Ainda a melhorar O lado negativo é que a diferença de salário entre homens e mulheres ainda é bastante acentuada. “Em muitos locais ainda, na mesma função, a mulher não consegue ascender. Geralmente um curso é necessário, mas ela tem filho e não consegue fazê-lo fora do horário. A maior parte dos cargos de gerência no Brasil ainda são masculinos”, diz Patrícia. Dados O Anuário das Mulheres Brasileiras é resultado da compilação das principais estatísticas e informações disponíveis sobre a mulher no mercado de trabalho, na saúde, nos espaços de poder, entre outros. 51,3% são mulheres no Brasil Escolaridade A média de anos de estudos das mulheres é superior à dos homens, com exceção das mulheres com idade entre 60 e 64 anos e 65 anos ou mais. Opinião Maria Izilda Matos, doutora em História e coordenadora do núcleo de estudos da mulher da PUC-SP Dupla jornada é cruel e mata Nos últimos 25 anos, aconteceu uma grande mudança na condição da mulher no Brasil. Com o desenvolvimento econômico do país aumentou sua presença em todos os setores profissionais e, em pararelo a isso, a escolaridade delas superou a dos homens. Há 20 anos a presença da mulher na renda das famílias já era grande, mas as pesquisas não eram precisas. Mesmo quando o homem era desempregado, as pesquisas censitárias ainda o inscreviam como chefe da família. Isso mudou, a mulher já não trabalha mais apenas para “os alfinetes e os grampos”. Por exemplo, hoje no setor bancário 78% dos funcionários são mulheres. Existe também muito trabalho feminino no mercado informal. Ele é difícil de mensurar, mas é muito importante para a economia do país. Há vários casos de costureiras com ganhos superiores dos maridos. Sem dúvida essa evolução foi boa para toda a sociedade, mas a dupla jornada que é imposta à mulher ainda é cruel. A maior causa de morte das mulheres hoje já é o enfarte, causado pela carga excessiva de trabalho fora e dentro de casa e o estresse dessa condição. Doenças como câncer de mama, de útero ou complicações de partos já perderam a primeira posição. As mulheres não tiveram melhora da qualidade de vida, carregam um fardo muito grande nessa sociedade. São elas as ‘chefes’ da família moderna Iguais ou superior aos dos homens, salários delas completam a renda familiar Além de diariamente lidar com números para aprovar ou não as fichas de clientes da instituição financeira onde trabalha como analista de crédito, Renata do Carmo Mendonça Matos, 26 anos, é quem controla as finanças da família. Recém-casada e mãe de dois filhos, ela revela que administrar a renda doméstica não é tarefa das mais fáceis. “Além de profissional, sou mulher, mãe, dona de casa. As tarefas são muitas e é difícil conciliar tudo”, comenta. Trabalhar é necessário para complementar a renda. Mas, mesmo se o cenário fosse diferente, Renata confessa que não abriria mão de sua carreira profissional. “Não me imagino em casa dependendo do dinheiro do meu marido. Além disso, meu salário faz diferença para nossas conquistas e planejamento familiar”, enfatiza. Juntos, Renata e o marido - Rafael Matos, 25, gerente de relacionamentos -, têm renda mensal em torno de R$ 5 mil. Ele possui nível superior completo e deve voltar às salas de aula no próximo ano em uma pós-graduação. Ela terminou apenas o ensino médio e sonha em fazer uma faculdade, mas tem outros planos para colocar em prática antes disso. “Queria um trabalho que me desse mais liberdade em questão de horários, seria mais fácil para conciliar os meus afazeres profissionais com a rotina das crianças. Penso em investir em um negócio próprio antes de voltar a estudar”, explica. Habilidade para gerir um negócio Renata demonstra ter de sobra. Afinal, é ela quem coloca no papel todos os gastos da família - das contas de água e luz até supermercado, escola das crianças e a mensalidade de um terreno que o casal comprou recentemente. “A gente gosta de controlar tudo muito bem. Normalmente eu faço isso, mas o Rafa acompanha porque se não, sempre acabo gastando com coisas supérfluas.” Ascensão conjunta Com renda mensal em torno de R$ 2,5 mil, Marcela Correia, 26, consultora de projetos da ACE (Associação Comercial e Empresarial), e o marido Dagnaldo Pereira da Silva, 30, operador de empilhadeira, dividem todas as contas do mês. Segundo ela, não daria para viver bem se só o marido trabalhasse. “Eu não posso dizer que trabalho para cuidar de mim. É porque preciso mesmo para ajudar a pagar as contas”, resume. Muito além da questão financeira, contudo, há o sonho de trilhar uma trajetória profissional bem sucedida. “Eu casei nova, então acabei não fazendo faculdade. Mas eu e meu marido começamos neste ano a guardar dinheiro porque esse é o objetivo para 2012. Queremos os dois iniciar o ensino superior”, conta Marcela, mostrando determinação e consciência sobre a importância da formação para conquistar novos desafios no campo profissional. “Hoje as mulheres trabalham e ganham igual ou mais que os homens. O custo de vida está muito alto, o que mudou o perfil das famílias”, completa. | |
domingo, 17 de julho de 2011
Mulheres já respondem por quase 50% da renda
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